Terça-feira, 13 de Junho de 2006

Os dias sucediam-se em Caxias...

Os dias sucediam-se em Caxias, iguais e diria que monótonos, não fora a indescritível série de sentimentos que, em me assaltando, acabavam por os preencher.

Apito de alvorada às 7 e café da manhã às 8. Quando me traziam o café – à descrição e que eu aproveitava para receber mais de 1 litro numa velha chaleira que me deram - guardava a maior parte para ir tomando durante o dia, aquecendo-o na água muito quente da torneira – traziam igualmente um pão grande que constituía ração de pão para todo o dia.

A refeição, de um prato, pessimamente confeccionada, talvez por sê-lo em grandes quantidades e com maus géneros, era servida ao meio-dia e de novo às 5 horas, constituindo a alimentação prisional. Como delas comia muito pouco, o pão e o café - o “mata-ratos”, como eu lhe chamava - constituíram a base da minha alimentação por esses dias.

O resto do tempo passava-o a meditar e inventar problemas de palavras cruzadas no papel do interior dos maços de cigarros vazios e cuidadosamente desmanchados, fazendo as quadrículas com a ajuda de uma régua fabricada com o papel estanhado de um deles, muitas vezes dobrado para ficar rígido, e uma ponta de lápis, gasto e mal aparado, que um carcereiro barbudo e simpático me forneceu.

Alguns acontecimentos, porém, vieram perturbar e, de certo modo alterar para melhor, aquela quotidiana melancolia. Refiro-me às comunicações que acabaram por se estabelecer entre alguns prisioneiros daquela mesma ala e que beneficiavam da fácil condução do som que o muro, já noutro apontamento referido, propiciava ao longo do exterior das celas, à primeira encomenda que recebi de casa e às secretas conversas que, às vezes, mantinha com o meu carcereiro de estimação. Em concreto e pelo que de pitoresco encerra e quando mais não seja sobre o estado de espírito que creio ser comum a todo o prisioneiro injustiçado - o que a consciência sente - , misto de gozo e de revolta, não resisto a contar aqui dois deles.

Quanto ao primeiro passou-se o seguinte: - Na véspera, tinha-me sido feita a entrega solene do regulamento prisional, que, divertido, li de ponta a ponta, e do qual nem as poucas vírgulas que continha devo ter observado. Ao contrário do que me era habitual e talvez como resultante directa do meu apreço pelo regulamento em questão, que taxativamente prescrevia como dever de todo o “detido” o levantar-se ao toque do apito, nessa manhã não me levantei quando o apito tocou, permanecendo sob as mantas e de tal modo que o guarda, mesmo espreitando de esguelha pelo postigo, não me via.

Como consequência normal dessa atitude, ouvi que ele metia a chave à porta e, “truca-truca, truca-truca”, (expressão gráfica do ruído que fazia), girava-a na fechadura, abrindo-a, após o que entrou na cela prudentemente permanecendo aos pés da cama, colado ao armário, até porque, vendo-me logo, imóvel sob as mantas, deve ter pensado o pior – ou que morrera, ou que estaria esperando que se aproximasse para lhe desferir um golpe traiçoeiro e tentar fugir. Por isso não se aproximou, limitando-se a chamar-me: - “Senhor detido, ó senhor detido!...”, sem obter qualquer resposta. Assim, senti que, pouco depois, saía e trancava a porta com um novo e repetido “truca-truca”.

Dez minutos passados voltava. “Truca-truca, truca-truca”, a chave girava novamente na fechadura e ele entrava. Mas não vinha só. Desta vez estava com ele um indivíduo entroncado, mal-encarado, careca, um chefe dos guardas, precisamente o que me havia recebido à entrada e, autoritariamente, me obrigara a despir. E foi este quem, mais afoito, mas não muito, se aproximou um pouco ma da cama e, com a voz autoritária de quem está habituado a ser obedecido sem discussão, disse: “Senhor detido, levante-se!…” Como resposta, permaneci na mesma, sem me mexer e sem responder. Ele, peremptório, ia insistindo embora cada vez mais brando, e, antes de repetir pela quarta ou quinta vez a intimação que me fazia, decidiu afastar-se e sair, talvez para ir buscar reforços como conjecturei…

De novo o “truca-truca, truca-truca” e o fechar da porta. Foi nessa altura que gritei: “- Ó senhor guarda, senhor guarda!...”

“Truca-truca, truca-truca”… a porta abriu-se e, apressadamente, entraram ambos talvez aliviados porque nada parecia ter acontecido comigo!, Destapando então a cara e com a calma que me era possível no momento, acrescentei pausada e claramente: -“Vão à …”, e utilizei a conhecida expressão de Cambronne, voltando-me a seguir para o outro lado.

Esperei uns dias por uma represália mafiosa que, felizmente para mim, nunca chegou mas lembro-me de ter passado aquele dia quase alegre na prisão.

O outro episódio aconteceu bastante mais mais tarde quando decidi escrever um postal ao meu boxer de nome Nanuk. E o postal, com o endereço postal de minha casa, continha, todo ele, expressões em linguagem canina, como "rrrrnn...au, au", "au, au!... rohnnnn", pelo que, julgando a censura tratar-se de um código, demorou mais de um mes a chegar ao seu destino!... A dúvida sobre se chegaria ou não e quando chegaria fez-me acordar com alento e atento à sua notícia durante muitos, muitos dias!

Sempre inventamos cada uma para passar o tempo!

publicado por Júlio Moreno às 00:56
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