Domingo, 11 de Junho de 2006

Seriam umas duas e meia da tarde...

Seriam umas duas e meia da tarde quando lá cheguei. Ao cimo das escadas e ao fundo de um corredor sombrio, contrastando enormemente com a luminosidade daquele lindo dia de Abril, uma rapariga, novinha e desgrenhada, sentava-se a uma secretária. Foi a ela que me dirigi e disse ao que vinha entregando-lhe o papel. Que esperasse naquela sala que já me chamariam, foi a sua resposta…

Cansava-me de esperar, havia já mais de duas horas, naquela sala vazia e sem cadeiras, quando lhe falei de novo e perguntei se não vinha ninguém! Que sim, que estavam em reunião… que esperasse mais um pouco. Voltei à sala para mais uma boa meia hora sem que ninguém me chamasse ou sequer aparecesse. Foi então que lhe sugeri que procurasse de novo quem me atendesse e que, entretanto, eu iria tomar café ali mesmo em frente e não me demoraria mais do que dez minutos.

Deveria ter notado uma certa perturbação na sua voz, o que não notei, confesso, pois vi que hesitava e se levantava apressadamente enquanto me dizia que não, que iria chamar e que viriam já… Apercebi-me, entretanto, de que estas minhas últimas palavras haviam provocado um verdadeiro “volte-face” em toda a situação: - gerara, com efeito, um inusitado “movimento de tropas” pois descortinei dois fuzileiros armados de G3 que se postavam ao fundo do corredor por onde eu havia entrado e onde antes disso não havia ninguém.

Interrogava-me ainda sobra a estranheza da nova situação quando na minha frente surgiu um ser magricela e pequenino, barbudo e vivaço, a quem ouvi tratar por “meu alferes”, (convém dizer que não sou alto pois só meço 1,67 e essa coisa que mexia dava-me pelo queixo), acompanhado do que, com propriedade, se poderia apodar de dois gorilas, dos tais que servem de guarda-costas aos cobardolas como o que tinha na minha frente.

Esticando-se todo, eu diria que em bicos dos pés, assumindo o que me pereceu ter sido uma postura idêntica à que teria tomado o próprio cardeal Mazarino se em seu lugar, estendendo-me um papel, proferiu em voz sibilina: - está preso em nome do Movimento das Forças Armadas!

A minha perplexidade foi tal que, para além de me ter conseguido aperceber ainda do ridículo de tal situação, apenas me recordo de ter dito qualquer coisa como “Como?” e perguntado se poderia fazer um telefonema. Consentido este, numa outra sala e sob escolta de um sargento da armada e de dois fuzileiros, demos, finalmente, início a uma viagem em grande correria para Caxias a bordo de um velho Fiat (daqueles que a PIDE costumava roubar aos prevaricadores) não sem que, no caminho, o simpático sargento fuzileiro que me acompanhava não tivesse mandado parar o carro e ele próprio ido comprar-me dois maços de cigarros.

Cheguei a Caxias seriam umas oito e meia da noite. Depois de uma minuciosa revista pessoal, que me tinha obrigado a despir, e de entregue toda a documentação, dinheiro e demais pertences que trazia, deram-me duas mantas velhas e conduziram-me à minha cela, a 37 do segundo piso das traseiras, onde iniciei um curso intensivo de democracia ao longo dos 8 meses, precisamente 254 dias que permaneci preso.

Restaurava, assim e ainda sem que o soubesse verdadeiramente, pois tudo aquilo me parecia algo de outro planeta e que logo na manhã seguinte se resolveria, a velha tradição familiar de meus avós, tanto materno como paterno, ambos presos por causa dos seus ideais republicanos nos tempos conturbados dos primórdios da República!

Mas não perca…leia os próximos capítulos. Mais episódios extraordinários se seguirão…

publicado por Júlio Moreno às 10:40
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