Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

O debate do Padre Carreira das Neves e de Saramago

Costumo ser uma pessoa moderada, ponderada e não costumo ferver em pouca água muito embora me sinta, e desde que me conheço que o terei sido, bastante combativo no que respeita àquilo a que eu chamarei de “intransigente defensor das minhas convicções”.

Ora, é precisamente o que agora faço, ao pretender analisar, nestas brevíssimas linhas de comentário, o debate – que não chegou sequer a sê-lo – entre o Padre Carreira das Neves, segundo me informam a maior autoridade portuguesa em matéria de estudos bíblicos, e o escritor, que ainda hoje me espanta de ter sido um Nobel, José Saramago.

O que vi e o que ouvi foi apenas o seguinte:

- Vi um moderador cuja opinião muito prezo mas com quem, por vezes, também não poderei concordar – a começar, passe o gracejo, pela submissão com que aceita o rígido horário da TV, obviamente mais interessada na passagem de anúncios publicitários que, a despeito de lhe garantirem o sustento, não o deveriam escravizar ao ponto de negar aos portugueses e seus tele-espectadores mais alguns minutos dedicados ao esclarecimento de “coisa” tão importante como a que supus estar em causa e que, em boa verdade, como toda a gente viu, não estava.

- Vi e ouvi, igualmente, duas pessoas, frente a frente e afastadas, que estavam, uma da outra, nos extremos de uma grande e, já agora, inestética e bastante impessoal e fria, mesa – talvez simbolizando a real distância que intelectualmente separava os presumidos contendores – que, longe de exporem, na linguagem comum dos leigos e que todos pudessem entender, as abissais diferenças de ambos na interpretação e consideração que cada qual tem da Bíblia que, como se sabe, é o livro sagrado de católicos e protestantes tal como para os islamitas será o Alcorão.

- Vi e ouvi que e como insistentemente "martelaram" no conceito do figurativo e nunca do literal com que a Bíblia deverá ser interpretada, e ouvi – espantado! – que aquele senhor mais alto e mais magro, quase cadavérico, que à esquerda do moderador se encontrava, o tal Nobel que não sabe sorrir nem pontuar os seus escritos e a quem, adiante, aconselharei remédio infalível para a dificuldade que, sem qualquer dúvida, deverá sentir em fazê-lo, ouvi, espantado, dizia, que esse mesmo Nobel se havia permitido chamar Deus de “filho da p…” sem que, sempre baseado nos mesmos conceitos de liberdade de acção e expressão que para tanto invocava, tivesse havido um qualquer “filho da p… “ que, perdido o respeito pelos seus oitenta e tal anos, lhe tivesse dado, como “liberdade de autor “ um bom par de estalos por tal escrito, de bem pouco lhe valendo o reconhecimento que, não isento de arrogância, a mesma que assola os espíritos medíocres e que só sabem fazer uma coisa e ver uma coisa, sempre a mesma, publicamente, ali fez de se haver excedido um pouco naquilo que escrevera conforme o reconhecera já - assim o disse - numa entrevista que, alegadamente, dera nessa mesma manhã.

Padre Carreira das Neves, desculpe o desabafo mas sempre o julguei mais incisivo na defesa das convicções que o terão levado ao sacerdócio e do sentir íntimo de milhões e milhões de pessoas, para não falar só dos portugueses, que acreditam em Deus e muito carecidos se encontrarão de quem lhes ensine a ler e a interpretar a Bíblia como o senhor o saberá fazer mas que não fez.

Senhor José Saramago, escreva o que lhe apetecer e o que ditar a sua iluminada mente mas, por amor, talvez da memória que acredito tenha de sua mãe, a quem eu nunca culparia de o ter dado a este mundo, mas deixe em paz quem está em paz, não vá algum “filho da p…” qualquer, esperá-lo em qualquer curva do caminho...

Quanto à pontuação, e como acima prometi, lembro-lhe o que o Joãozinho fez na redacção que, sem pontuação alguma, entregou à sua professora: - no fim do texto, reservou duas ou três linhas nas quais inseriu todos os símbolos da pontuação da língua portuguesa, - a mesma que meu saudoso avô, Augusto Moreno, mestre que dela era, filólogo, dicionarista, prosador e com veia poética, e nunca prémio Nobel de coisíssima nenhuma, apenas professor emérito e distinto que o foi - e por baixo escreveu: - "ordinário marche cada um aos seus lugares", na mais do que legítima expectativa de que vírgulas, pontos e vírgulas, finais, de interrogação e exclamação, todos, enfim, cumprissem prontamente a ordem que lhes dera.

Faça o mesmo, senhor Saramago, e vai ver que toda a gente lhe ficará grata por isso pois poderá colocar a pontuação dos seus textos no lugar que mais lhes aprouver com o que sairão, acredite, muitíssimo beneficiados.

Sabe, o senhor fez-me lembrar o Padre Girão, que fazia versos sem se importar com a métrica, e a quem, um belo dia, Nicolau Tolentino escreveu um soneto que aqui procurarei recordar de memória e dizia algo parecido com isto:

- Padre Girão, se a Vossa Reverência / lhe deu licença o santo Patriarca / de fazer versos mais da marca / bem dada foi, em sua consciência.
- Porém, se lha não deu, mostre Vocência / exemplos em Camões, Lope ou Petrarca / e não me ande por aí roçando alparca / porque me dá com um pau na consciência.
- Se a musa de Vocência é a centopeia, / savandija do charco do Pegaso / versos faça, com Deus, de légua e meia.
- Porém, se algum coimeiro do Parnaso / lhos levar, por compridos, à cadeia / que há-de fazer Vocência neste caso?

A propósito: - eu não comprarei Caim e aconselharei os meus amigos a que o não façam.

Pelo menos, e quanto a mim, terá sido pura perda de tempo a sua tristíssima tentativa de publicidade…

Que Deus o proteja, senhor Saramago, e quando chegar o seu dia, lhe possa, para sua surpresa, mostrar-lhe o caminho, como se mostra a quem nesta vida se mostrou tão insolente, perdão, tão inocente!...
publicado por Júlio Moreno às 19:51
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