Segunda-feira, 8 de Maio de 2006

Celeste…

Ela era linda. Era cigana. Franzina e loura, de tez morena e olhos verdes, sempre brilhantes e vivos como os dos gatos. As vestes negras que sempre a cobriam, adelgaçavam-lhe a figura e realçavam-lhe a elegância natural do corpo ajoujado ao peso das coisas que lhe davam e de outras que, não lhe sendo dadas pela lei dos homens talvez lhe fossem consentidas pela lei de Deus.

Celeste era o seu nome. Estou a vê-la, muito alta, da pequenez dos meus cinco ou seis anos. Descalça, subia ligeira as escadas de pedra da cozinha e, quando não entrava logo, descarada, sentava-se na soleira da porta aguardando o que sabia ser já certo.

Comia sempre o que houvesse e que nunca lhe foi negado. Com um obrigado e um adeus, ligeiro e furtivo, fazia-me às vezes uma festa na cabeça bem ao desagrado de minha mãe, o que eu notava, e ia-se embora tal como viera: - ligeira e ágil movendo-se como se não pusesse os pés no chão.

Ouvia dizer que era perigosa e não sabia porquê. Nunca tive medo dela!...

Mas a Celeste deixou de aparecer. Passou muito tempo, meses, muitos meses se não anos, até que a vi de novo. Voltara lá a casa mas já não vinha tão linda nem tão ligeira! Parada, de pé, junto da porta da cozinha, sobre a anca, então proeminente, encavalitava agora uma criança, loura e suja, que um xale preto arrimava à cintura. Os seus olhos já não tinham o brilho que antes vira e das suas feições, mais vincadas e sombrias, transparecia agora uma melancólica tristeza.

Comeu, como sempre e, como quase sempre acontecia, a minha mãe falou com ela de coisas que não entendi… Desceu as escadas e foi-se embora, levando consigo a criança que, entretanto, devia ter adormecido pois calara-se… Nunca mais a vi.

Soube mais tarde, muito mais tarde, que o seu nome era Celeste, que roubava e que enfeitiçava os homens. Que estivera presa e que morrera. Senti uma dor ligeira no meu coração. Era pena e, talvez, saudades dela. Compreendi então que almas assim não podem ser presas. Prende-las é matá-las. E foi o que fizeram…
publicado por Júlio Moreno às 13:31
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