Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

O professor de inglês...

Aparentemente rude, de estatura mediana e sobre o forte, rosto tisnado pelo sol e como que picado de bexigas, com um grande bigode, farfalhudo e negro, nariz quase aquilino e olhar penetrante, parecia uma fera! Mas nela, afinal, se escondia um homem sensível e quase tímido, vivendo uma vida amargurada pela morte, estúpida, cruel e quase inimaginável dos seus dois únicos filhos, já crescidos, afogados no mesmo dia no lodoso rio Leça onde, segundo ouvi dizer, calmamente passeavam de barco após um “pic-nic” entre amigos… A rapariga caiu à água e não sabia nadar. O irmão, mais velho e que também não sabia, ter-se-á atirado também na ânsia de a salvar… Morreram ambos… Paz às suas almas!

Por cá ficou um pai de coração desfeito, um homem angustiado e bem diferente do que teria sido se essa tragédia não tivesse acontecido!

Por isso, acho que os seus filhos passaram a ser os seus alunos. E eu tive a honra de ser um deles…Era professor de inglês, terrível e mordaz nas suas críticas e nos seus ditos (recordo: - “o … Brito é tão bruto que até escreve bruto com “i”" ou então, como aconteceu comigo quando lhe entreguei um cartão de minha mãe que lhe pedia a minha dispensa para a aula seguinte: - ” as letras são sinais convencionais e para toda a gente ler! Que está aqui escrito?...” – minha mãe tinha, de facto, uma caligrafia difícil de entender, angulosa e, ao que julgo, muito à moda da sua época!)…

Mas o que verdadeiramente nos deliciava eram as suas narrações de história. De história de Portugal ou universal, tanto fazia, desde que entrassem batalhas na sua descrição… O grande livro vermelho, de ponto, era o campo de batalha… o tinteiro as tropas de uma das facções… a planta da sala, canetas, lápis e tudo o que houvesse à mão, a outra facção… E a batalha tinha então o seu lugar. Por entre o verdadeiro troar da sua voz emocionada ao relatar os feitos heróicos e que iam desenrolando entre os combatentes envolvidos, tácticas, avanços e recuos, cargas de cavalaria e debandada de peões, o som dos murros dados sobre a secretária, o tremer quase da sala e as chispas que lançavam os seus olhos… tudo nos transportava ao verdadeiro campo da luta que, ante os nossos olhos sempre renovadamente espantados, se desenrolava com novas formas a cada nova descrição!... Era o nosso professor de inglês, o nosso temido e querido mestre, o primeiro a ensinar-nos “I do, you do, he does…I am, you are, he is…”

Que saudade!...

Um dia, muito mais tarde, e numa das minhas fugidias vindas ao Porto, pois vivia e trabalhava em Lisboa, vi-o, sentado a meu lado, no barbeiro. Pelo espelho, vendo-o, hesitei… Temendo ter-me enganado ou que ele me não reconhecesse já, atrevi-me: - “Senhor doutor…”. Um enorme sorriso se alargou naquele rosto sempre tisnado e rude. E no breve intervalo de uma amoladela de navalha, pois o barbeiro fazia-lhe a barba, respondeu-me: -“Estava a ver que já me não conhecias…” .

Entre centenas, talvez milhares, ele não me esquecera!
publicado por Júlio Moreno às 11:02
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