Sexta-feira, 31 de Março de 2006

Cogitações…Um dos mais chorudos negócios da banca

Já aqui abordei este tema, ainda que lateralmente e a propósito de outro assunto. Volto a ele, porém, por ser uma das coisas que sempre me causou a maior perplexidade e porque nunca a entendi, não obstante as variadíssimas, palavrosas e argumentativas explicações que já muitos pretenderam dar-me.

Trata-se de saber da razão pela qual se eu pagar a alguém uma quantia com um cheque barrado, ou cruzado como também se diz, o valor em causa, ao ser depositado o cheque, sai imediatamente da minha conta e só aparece creditado na conta da pessoa a quem paguei cinco dias úteis mais tarde não se contando o dia do depósito! Assim é na CGD se o cheque for de outro banco.

Que são instruções do Banco de Portugal, que o cheque tem de ir à compensação do Banco de Portugal, que é a lei que assim manda, etc., etc., uma séria infindável de explicações tendo sempre como panos de fundo o Banco de Portugal, a lei e o dito fenómeno da “compensação”.

Muito bem, seja. Mas seja qual for a razão que tal motiva, para mim a coisa é clara: - trata-se de mais um imposto disfarçado ou de um abuso por parte das entidades bancárias que, assim procedendo, configurarão a prática de um acto ilícito claramente previsto na lei: - o enriquecimento sem causa, ou seja, o velho locupletamento à custa alheia, (veja-se o artigo 473º do Código Civil Português).

Na verdade, será através de artifícios como este que os Bancos – a braços, segundo consta, com um elevado volume de créditos mal parados – podem, mesmo assim, continuar a apresentar os lucros fabulosos que apresentam durante épocas de generalizada crise como aquela que vivemos e onde os lucros bancários surpreenderam mesmo os próprios especialistas na matéria que não se cansaram de enaltecer o facto. É que se estimarmos no número total-nacional de 5.000 a quantidade de cheques que sejam diariamente transaccionados por um determinado banco, a maioria dos quais barrados - por mera precaução do pagador que assim se previne contra casos de extravio e mais facilmente poderá obter comprovativo do pagamento que tiver efectuado, já que o cheque terá de ser obrigatoriamente depositado numa conta bancária do recebedor - e se estimarmos também o valor médio para cada cheque de, digamos, 250 euros, teremos que, só durante os cinco dias do período de compensação, o banco terá recebido 1.250.000 (um milhão e 250 mil euros) que movimentará a seu bel-prazer e do qual não terá de prestar contas a ninguém. E porque nos Bancos o dinheiro nunca está parado, se assumirmos que ele possa render a uma taxa de 3% ao ano, teremos, feitas as contas, que o Banco terá “encaixado” (como se diz em linguagem financeira hoje tão em voga no léxico ministerial dos primeiros-ministros e ministros das finanças) nada mais, nada menos do que 51.370 euros sem qualquer esforço ou risco. E este valor, válido para os cinco dias da “compensação” deverá ser multiplicado pelos 248 dias anuais de trabalho da banca (365 dias menos 52 domingos, 52 sábados e 13 feriados) com o que obteremos um lucro de legitimidade muito duvidosa equivalente a 310 milhões de euros anuais! E isto apenas numa pequenina habilidade bancária a que já ninguém parece ligar. Mas se a isto juntarmos as comissões, os serviços e as deduções que vão aparecendo nos extractos das nossas contas, os lucros tornar-se-ão astronómicos!

De pasmar, não é? Mas tanto é de pasmar tal lucro como que ninguém reclame já que é com o “nosso” dinheiro que fazem o bolo!...
publicado por Júlio Moreno às 00:29
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1 comentário:
De Teresa Soares a 31 de Março de 2006 às 12:31
Já é tempo de começarmos ( ou maturarmos) de forma mais eficaz, como neste artigo acontece, por parte do Júlio Moreno.
Estamos a ser comidos vivos! Aparece agora também a ideia peregrina dos bancos cobrarem taxas por levantamentos Multibanco! Temos de dizer não, pois aqueles apresentam lucros fabulosos, contra a debilidade cada vez maior das nossas bolsas e o potencial aumento de desemprego de talvez alguns funcionários da própria Caixa Geral de Depósitos.
É urgente exercermos também a nossa capacidade crítica contra a atitude dos media nacionais ( jornais e revistas, sobretudo estas), de cócoras perante as pessoas que mais dinheiro têm neste país. Não há semana em que não apareça o paneg´rico de um banqueiro, de um empresário, de um poderoso qualquer, cujas fórmulas de juntar dinheiro mesmo assim escapam ao vulgar cidadão, que tem de trabalhar tanto para ter alguma qualidade de vida!
Que raio de país é este, moldado entre a miséria e o poder escancarado do capitalismo desenfreado?


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