Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005

Será isto jornalismo?...

Quando, em fase de inquérito - que, segundo se depreende estará a ser levado a cabo por uma comissão independente (cito: "…o ministro britânico do Interior, Charles Clarke, considerou que é preciso deixar a Comissão Independente «fazer o seu trabalho sem pressões»…" - fim de citação) - se publicitam notícias desta natureza (cito: "…O brasileiro Jean Charles Menezes, morto por engano pela polícia britânica, que o confundiu com um terrorista, estava sentado numa das carruagens do metropolitano quando foi abatido a tiro, revelou a estação de televisão britânica ITV…" - fim de citação), interrogo-me: - Será isto jornalismo?

Terão estes senhores o direito de continuar, impunemente, a deformar a opinião dos cidadãos, gozando de uma tribuna privilegiada como é um jornal televisivo, para, ao que tudo indica, sem provas ainda e baseados apenas no testemunho de um cidadão que se diz sentado no banco em frente da vítima (cito: "…Terça-feira à noite, a ITV, citou uma testemunha, um homem que estaria sentado em frente de Menezes na carruagem do metro e que contou: «De repente, entraram polícias (na carruagem) e, olhando para o brasileiro gritaram: Polícia!» …" - fim de citação), cidadão esse que não apresenta, à partida, quaisquer credencias que o afirmem como testemunha confiável e credível?

Será que, sem ter terminado ainda o inquérito (insisto neste ponto), se poderá, impunemente e com a ligeireza de quem faz apenas deslizar a esferográfica no papel sem meditar um momento na simples fundamentação lógica do que afirma? Será que pode, um qualquer jornalista, alheando-se de todo e qualquer dever deontológico e profissional, pôr assim em causa a actuação da polícia, confundindo os leitores e fazendo aumentar ainda mais a intranquilidade pública britânica e dos cidadãos de outras nacionalidades que vivem ou visitam a Grã-Bretanha?

Não será verdade que, baseado apenas no crédito que lhe terá merecido um anónimo cidadão (o nome não é referido) o jornalista se permite contrariar toda a lógica que, eventualmente por erro de fundamento inicial, terá levado a polícia a disparar matando (cito: "... Segundo a testemunha, quando o jovem brasileiro fez o gesto de quem se ia levantar, um dos polícias imobilizou-o e outro disparou oito tiros à queima-roupa, sete na cabeça e um no ombro. Outras três balas foram disparadas para o chão..." - fim de citação)? Quererá o senhor jornalista (aqui o senhor parece-me descabido) afirmar nas suas entrelinhas que a polícia britânica faz parte do crime organizado pois acoita bandos de assassinos com a agravante de o soldo lhes ser pago pelo próprio Estado? Ou será que o senhor jornalista apenas se quis vingar na polícia por uma qualquer multazinha de estacionamento com que terá sido autuado tempos atrás estando-se nas tintas para as consequências do seu acto?

Não sou britânico, serei, talvez, um longínquo descendente. Sou português e gostaria de ter mais orgulho em sê-lo se não soubesse que, também por cá, se pratica um jornalismo semelhante e que, também por cá, consciência profissional e cívica é coisa que não abunda muito.
publicado por Júlio Moreno às 10:14
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