Quarta-feira, 8 de Junho de 2005

A Europa, o euro e a vida.

Tenho, por natureza, tanto de crédulo e, neste contexto, até de ingénuo, como de céptico e de ter "de ver para crer", como São Tomás.

Vem isto a propósito de, pela crise de europeísmo que vivemos, com os "nãos" rotundos da França e da Holanda à Constituição Europeia, toda ela cozinhada em lume brando e à revelia dos povos aos quais iria ser aplicada - esperemos que o não seja! - a minha memória ter recuado para o tempo, não muito distante, em que determinados sábios economistas nos davam cabo cabeça tentando demonstrar que a mudança da moeda para o euro em nada mudaria a nossa vida pois, da aplicação da sua equivalência ao escudo, nada seria alterado na nossa economia tanto diária, como de curto, médio e longo prazos! Disseram-nos isto. Voltaram a dizer e nunca se cansaram de nos tentar convencer.

Ora, eu desconfiei. Juro que desconfiei, não obstante todos os dias um senhor (acho que professor ou, pelo menos licenciado em economia) nos garantisse que nenhuma mudança iria ser sentida no que respeita ao chamado "custo de vida". E exemplificava, debitando números, esquemas de cálculo e tabelas ao mesmo tempo que garantia que os novos preços em euros, uma vez o escudo fora de circulação, seriam rigorosamente observados e fiscalizados para que nenhum esperto do costume pudesse vir a beneficiar indevidamente com a mudança. E explicava a teoria do "arredondamento" dizendo que as milésimas de euro, de 5 ou superiores, se deveriam "arredondar" para a centésima de euro imediatamente superior e as inferiores baixar.

Aí, vieram-me à memória as sábias instruções de Salazar a determinar que os arredondamentos dos centavos sempre se fariam mas "para baixo" se representassem pagamentos do Estado e "para cima" se constituíssem sua receita. Era a aplicação na área das finanças públicas do popular ditado: - "grão a grão enche a galinha o papo" que tão em voga estaria lá para os lados de Santa Comba. E, porque o papo era grande e o milho escasso, certamente demoraria muito tempo a encher. Já aí Salazar previa e, talvez por esta forma tivesse dado notícia - que poucos ou nenhuns entenderam! - de que, por isso, teria de estar bastante tempo à frente do país! E assim foi. Quarenta e oito anos depois é que "foi abdicado" mercê da desgraçada intervenção, na altura histérica, hoje histórica, de uma cadeira desconhecida!

Mas, e o papo do país? Ah! esse ficou cheio, cheio e bem cheio! Tão cheio ficou (não obstante na primavera que se lhe seguiu algumas incomodativas gastrites o tivessem ligeiramente esvasiado) que até deu para suportar todas as delirantes e soaristicas integrações europeias bem como as criminosas descolonizações que se fizeram, tal como se fora um pai ou uma mãe a abandonar os filhos, ao Deus dará e à sua sorte, sabendo, de antemão e como se sabia, que a doença civilizacional política já então os minava e lhes tolheria a própria vontade! Mas deixemos isto que, com o pano para mangas que tem, poderá ficar para uma próxima oportunidade. Por agora só a Europa, o euro e o nível de vida em Portugal que, no dizer de então dos aprendizes fazedores de europeísmos, nunca se alteraria.

Bom, eu comi essa do euro. Comi e como eu comemos todos. Mas caíu-me mal e, daí para cá, as indisposições sucederam-se.

O euro entrou, assim, ao serviço relegando o escudo para 200,482 "furos" mais abaixo. A paridade da nova moeda foi estabelecida (nunca soube bem como nem por quem!) e em resultado de tudo isto a moedinha mais pequenininha que passou a circular entre nós deixou de ser a de um escudo para passar a ser a de um cêntimo. Até aqui tudo bem. Porém, o grande logro viria logo a seguir. É que a moedinha mais pequenininha que nós tínhamos agora para pagar o que comprássemos equivalia não a um mas a dois escudos, o que queria dizer que se eu "hoje" quisesse comprar algo que "ontem" custasse um escudo, ou não comprava, porque não teria como o pagar; ou comprava duas unidades desse algo, sendo que o segundo algo me seria supérfluo pois não tinha sido minha intenção comprá-lo; ou ainda, e isto terá acontecido em 200% das vezes, fazia de conta que não via e deixava que o tal esperto, de que acima falava, me cobrasse o dobro do real valor do algo que eu comprara!. Estaríamos, assim, a dar mais um passo no sentido do criticável consumismo, ou a esbanjar no supérfluo, ou, conscientemente, a consentir que nos enganassem. Mas, proclamava-se que a vida e o seu "custo" permaneciam inalteráveis no nosso país de papo cheio, mas agora cheio de ventos e, talvez, de ventos mal cheirosos de cravos já apodrecidos!

Percebo, e percebo hoje claramente, que o custo de vida não subiu em Portugal, não senhor! Nós, portugueses, é que descemos! E descemos tão baixo que, para além de nos ir sendo cada vez mais difícil comprar qualquer "algo", conscientemente deixamos que, os que tão democraticamente teimam em defender o seu papo, mais cheio do que o do país, nos continuem a enganar com falinhas mansas.

A provar a razão que teria quando assim pensava (e penso), aí está a Itália a pensar e repensar o regresso à lira...
publicado por Júlio Moreno às 12:27
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