Sábado, 19 de Junho de 2010

Lamento a morte de José Saramago ...

Lamento a morte de José Saramago como lamento a morte de qualquer ser humano. Tal como já o referi aquando da morte de Álvaro Cunhal, não obstante o ateísmo a que as suas filiações partidárias sempre os conduziram - ou obrigaram!? – não só lamento a sua morte como me permito aqui encomendar a sua alma a Deus e a fazer os votos mais sinceros por que na Sua misericordiosa companhia encontrem a paz que na terra nunca tiveram a felicidade de viver.

O que nessa mesma morte nunca lamentarei, apenas porque não posso, em consciência, fazê-lo, é o desaparecimento de um prémio Nobel da Literatura Portuguesa, que nunca nele reconheci, pois nunca fui capar de o ver, como jamais o verei, como equiparável a um Eça de Queirós, a um Alexandre Herculano, a um Ramalho Ortigão, para já não falar de um Camões, de um Guerra Junqueiro ou de uma Florbela Espanca, e de tantos,tantos outros que esses sim, constituiriam e constituem a verdadeira plêiade da literatura portuguesa.

Será visceralmente irresistível, será intelectualmente incompreensível mas, seja como for e como o quiserem considerar, este meu sentir é humanamente verdadeiro e coerente com a postura que desde sempre assumi perante o que considero ser um desvario intelectual e uma improbidade moral em que os tempos modernos têm vindo a transformar as coisas que desde sempre me habituei a respeitar porque assim terei sido ensinado.

Considero José Saramago como um indiscutível mestre de ideias, como um argumentista invulgar e talvez mesmo um verdadeiro ideólogo, mas nunca um escritor na acepção por que entendo tal designação e atributo já que nunca pontuava os seus escritos e, como sabemos, a pontuação é um dos principais atributos de qualquer texto assim com a inflexão verbal que damos à nossa voz complementa e verdadeiramente caracteriza o sentido daquilo que queremos exteriorizar quando falamos assim se distinguindo um declamador de um simples dizedor de versos ou um verdadeiro tribuno de um mero verborreico de fastidiosos discursos…

José Saramago era, sim, um pensador, polémico, frio e arrogante, pouco dado a uma exuberância de sentimentos que talvez lhe tivessem ficado bem se exteriorizados quando questionado sobre os vários temas que audaciosamente abordava, desde os históricos aos actuais, sociais e políticos, filosóficos e metafísicos por cujos meandros quis enveredar mas, a meu ver, sem êxito, ou melhor, com um êxito semelhante ao que hoje vemos ser reconhecido a uma qualquer banda de “heavy metal”, que, quanto mais barulho - que não música – fizer, melhor será e mais conceituada por uma cultura já cansada dos seus imortais Mozart, Chopin, Schumann ou Tchaikovscky  que terão já passado de moda!

Morreu Saramago! Morreu um homem. Sinto a dor da família e dos seus próximos mas não entendo a subserviência dos pseudo-intelectuais e dos políticos que, a uma só voz, manifestam tão publicamente o seu grande pesar, quando no quotidiano, ignoram a morte de milhares de Saramagos aos quais Deus quis fazer terminar o seu percurso e sofrimento nesta terra e perfilham posições sócio-culturais em tudo contrárias às leis da natureza à sombra das quais afinal vivem e vieram a este mundo e das quais estranhamente se orgulham chamando-lhes “progresso”!

Tristes tempos estes em que vivemos! Tristes tempos em que, sendo a Bíblia considerada “um manual de maus costumes”, prestamos obediência aos seus ensinamentos e simultaneamente louvamos quem a calunia e despreza!

Morreu Saramago. Morreu um ser humano. Inteligente, sem dúvida que o era mas que, no meu modesto entender, terá usado muito mal esse dom que lhe foi dado e não constituirá motivo para luto nacional já que, se assim fora, Portugal deveria viver um luto permanente.

Abandonemos a hipocrisia social e pseudo cultural em que vivemos. Respeitemos o homem, como tal, prestemos-lhe a homenagem adequada à sua verdadeira dimensão, mas atrevamo-nos, de uma vez por todas, e tal como Eça o fez um dia quando afirmou que a morte do Presidente da República não era um motivo de consternação geral; pelo contrário, animava o comércio…

Se os homens me não entenderem eu sei Quem me entenderá.

publicado por Júlio Moreno às 18:22
link | comentar | favorito
2 comentários:
De contoselendas a 22 de Junho de 2010 às 00:10
Julieta a Romeu

É tarde, amor, o vento se levanta,

A escura madrugada vem nascendo,

Só a noite foi nossa claridade.

Já não serei quem fui, o que seremos

Contra o mundo há-de ser, que nos rejeita,

Culpados de inventar a liberdade.





Romeu a Julieta

Eu vou, amor, mas deixo cá a vida,

No calor desta cama que abandono,

Areia dispersada que foi duna.

Se a noite se fez dia, e com a luz

O negro afastamento se interpõe,

A escuridão da morte nos reúna.



José Saramago, Os Poemas Possíveis, Lisboa, Caminho, 1985



De Júlio Moreno a 22 de Junho de 2010 às 11:29
Obrigado Contoselendas ". Confesso-lhe que desconhecia este poema de Saramago, que acho bonito e expressará um belo sentimento! Talvez seja ele a excepção que confirmará a regra... Em todo o caso, perpassando a obra literária de Saramago, fundamentalmente a prosa, que melhor conheço, permaneço fiel às minhas convicções. Obrigado uma vez mais pela visão que me deu deste pedacinho de luz ao fundo de um extenso e negro túnel...


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds