Domingo, 20 de Junho de 2010

Apetece-me escrever…

Apetece-me escrever e hoje atrever-me-ei a fazer aqui uma pública confissão: – gosto de escrever, gosto de ler o que escrevo mas, lidos e relidos os meus pequenos textos, nunca com eles me satisfaço plenamente, achando-os sempre aquém, muito aquém do que pretendia e do me ia na alma ao escrevê-los!

Quando, por dever de ofício, era obrigado a escrever extensos relatórios, repositórios conclusivos de complexos processos militares que iam da mera infracção disciplinar ao crime, sempre procurei ser objectivamente crítico quer dos factos, do “presumido delinquente” e do “instrutor do processo”, quer da própria interpretação da lei, buscando, numa síntese verdadeira e clara, a adição dos factos, pró e contra, que conduziriam quer à culpa quer à inocência do pretenso prevaricador e, de tal forma, ajudar quem, em última instância, iria ter de se pronunciar pela existência de culpa ou pela ausência dela e, em estrita obediência aos preceitos do velho RDM (Regulamento de Disciplina Militar) ou do Código de Justiça Militar, punir ou absolver.

Recordo, nesses tempos que já lá vão há muito!, de ser eu mesmo a pedir ao meu saudoso Chefe do Serviço de Justiça do Comando-Geral da GNR, onde então me encontrava como Adjunto, que me retirasse das mãos os relatórios sob pena de não mais os concluir tantos eram os erros de forma e talvez de estilo, logo de conteúdo, que neles encontrava quando os relia pelo que constantemente lhes fazia pequenas, pequeníssimas alterações, procurando melhorar o sentido e o alcance das palavras e medir bem o seu peso na conjuntura em que as utilizava, muitas vezes lamentando que o nosso léxico não fosse mais prolixo e capaz de, com maior eficiência, me permitir transmitir ao papel o que me ia na alma naqueles momentos em que sentia plena consciência de que, em grande parte, estaria nas minhas mãos a sempre temida espada da Justiça.

-“É um perfeccionista…” – respondia-me ele com a sua habitual bonomia, ao mesmo tempo que, acedendo ao meu pedido, pegava nos relatórios que, por sua vez, analisava, nunca os alterando, antes de os levar ao General, Comandante-Geral para despacho e decisão final.

Não se estranhe, por isso, que eu veja e reveja muitas vezes estes meus textos, de tal forma os burilando e retocando que, por vezes e no final, nem eu mesmo consigo lá muito bem entender o que escrevi e, sobretudo, para quem e porquê os escrevi! É que, perdoem-me a imodéstia, mas lapidar um diamante é obra só de peritos e eu sei bem, eu sinto-o, que terei alguns diamantes em bruto na minha alma mas que não saberei bem como os lapidar…

Vem isto a propósito – tudo nesta vida tem um propósito, nem sempre muito evidente, mas sempre um propósito – de um comentário de um amigo que há dias aqui escrevia assim: - “ ... não nos podemos esquecer que estes comentadores são aqueles que nos reforçam o ego para o ódio e o ressentimento. Isto basta para dizer da sua cultura a todos os níveis Portugal o Pais do facilitismo tem o que merece nos mais diferentes quadrantes. Vejamos a nova politica para passar do 8º para o 10ª Ano e perceberemos o porque de tão poucos comentários as suas opiniões ou de outros, não é que não leiam. Não entendem, não se querem esforçar.””.

 

Este comentário, se bem que proveniente de um jovem sensível e sofredor – presumo-o! – alimentou a minha alma e reforçou a minha convicção ao ponto de pensar que talvez não perca o meu tempo quando aqui extravaso as minhas convicções sobre os temas que têm o condão de “bulir” comigo, com o meu “eu” profundo. Bem haja, pois, pelo que escreveu e no que, talvez até contra a minha vontade, começo eu mesmo a acreditar. “Iliteracia” – neologismo dos nossos dias – mas que é bem capaz de sintetizar correctamente a cultura nacional mormente daqueles que se julgam cultos porque ostentam um “canudo” debaixo do braço mas permanecem insensíveis ao palpitar dos corações dos seus semelhantes e, tantas vezes, mentem a si mesmos e são infiéis aos seus próprios sentimentos.

 

Pobre evolução humana! Pobre humanidade que se verga hoje, mais do que nunca, ao que julga ser o “politicamente correcto”…

publicado por Júlio Moreno às 11:39
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