Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Será a “intelectualite” uma doença mental ou uma manifestação recorrente do “nacional-carneirismo”?

Muitas vezes me assalta esta dúvida.

Será, de facto, a “intelectualite” uma doença mental ou uma mera e desconchavada manifestação pública do “social-carneirismo” que vulgarmente acompanha as elites pensadoras e as que, por tal se querem fazer passar, e que, em tempos idos, mas não há tantos que difícil se torne recordá-los, exuberantemente se manifestavam todos os domingos nos adros da Igrejas onde, contrastando com a sobriedade das pedras das fachadas e do burilado das suas entradas, se destacavam as elegantes “toilettes” femininas, onde não faltavam as mais ricas e trabalhadas jóias e as belas mantilhas rendadas ou as belíssimas e vastas “capelines” e os homens, trajando fato completo, onde predominava o tom escuro, alguns mesmo vestindo camisas de colarinho engomado, não dispensavam o lenço branco que sobressaía do pequeno bolsinho dos casacos.

As conversas, essas, nada tinham a ver com as cerimónias litúrgicas para que tinham vindo e o sentimento religioso que era pressuposto existir, antes versavam os mais variados temas das ocorrências políticas e sociais da semana que findara, ou os habituais mexericos, fazendo-se, na oportunidade, os mais avançados augúrios para os dias que se aproximavam quaisquer que fossem os temas que abordassem mas onde, por via de regra, abundavam os políticos, nacionais ou internacionais, provinciais ou locais.

No funeral de ontem, de José Saramago, repetiu-se a tradição no mais puro estilo português e, se eu trabalhasse nas obras diria – por deformação profissional, entenda-se – que se juntou ali a mais fina flor do entulho nacional, muito se criticando a ausência pessoal – em carne e osso – do Presidente Cavaco Silva, ausente nos Açores onde permaneceu tranquilamente e mais uma vez demonstrando a sua inatacável independência intelectual, social e política e reafirmando a sua qualidade de português responsável, indefectível patriota e bom chefe de família (mesmo sem ser, que eu saiba, sócio do Benfica!).

Cavaco Silva representou grande parte do sentimento nacional, foi coerente com ele mesmo e mais uma vez demonstrou que sabe bem qual é o seu dever como Presidente da República. Fez-se representar, enviou condolências mas não esteve lá. Deu inteira e cabal prioridade às suas convicções pessoais, à sua qualidade de Presidente de Portugal e à sua concomitante condição de pai de família e de avô, afastando-se do pacto que em certas ocasiões se estabelece, quer tácita quer expressa e interesseiramente, entre o dever patriótico e o dever da pseudo-cultura.

Quanto a Saramago quem sou eu para julgá-lo? Apenas me cumpre afirmar aqui a minha convicção pessoal de que, nos últimos dias de vida, muito provavelmente é bem capaz de se ter tentado aproximar um pouco daquilo de que tanto se afastou durante a sua vida… Reafirmo, portanto, o que ontem disse: - Paz à sua alma e que Deus lhe perdoe as blasfémias que proferiu ao referir-se à Bíblia como um "manual de maus costumes" e apodando Deus de calaceiro e preguiçoso já que "trabalhou seis dias e depois não fez mais nada"! e a Pátria a traição que ousou praticar vaticinando para um melhor futuro de Portugal a sua transformação numa mera província espanhola…

Sei que, com o que acabo de escrever, e tendo em consideração o que, desde ontem e sobre este assunto, venho escrevendo, alguns - dos poucos que me lerem - me irão achar parecido com aquele cão que agarra a presa nos dentes, a sacode e não a larga mais… Porém, longe de me ofender com tal comparação muito me orgulharia acaso a fizessem pois os cães, além de persistentes, audazes e pouco timoratos são, por via de regra, os mais fieis amigos dos seus donos!

publicado por Júlio Moreno às 12:03
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds