Domingo, 5 de Setembro de 2010

Onde estamos? Para onde vamos? Nº 2

No comentário anterior prometemos vir aqui falar de trabalho, de emprego e desemprego e, como o prometido é devido, cá estamos …

Portanto é o que nos propomos fazer hoje, assim sejamos capazes de metodizar e transportar para a escrita o enorme e fervilhante fluxo de ideias que, sobre este assunto, vem, de há muito, tumultuando o meu pensamento…

Começaremos pelo trabalho e pelos tempos do pleno emprego, dos quais me recordo ainda perfeitamente quando, na concomitante situação de empregado e empregador, os vivi na prática e na estranhamente próxima mas já tão longínqua época dos anos sessenta, princípios de setenta, antes da revolução que terá vindo libertar a meia dúzia de espíritos que se diziam “amordaçados” para, a prazo – o que na altura não foi sequer previsto – vir a aprisionar outros na mais angustiante e ignominiosa das prisões: - a de se ser livre mas sem rumo!

Não resisto à tentação de recordar aqui, neste brevíssimo parêntesis e para quem a memória, às vezes, já prega algumas partidinhas, que aqueles que então lograram livrar-se das mordaças de que tanto se queixavam, rapidamente “viraram” - como dizem os nossos irmãos brasileiros e tal como aconteceu na ex-URSS - em influentes potentados económicos, acumulando inusitadas riquezas pessoais obtidas, não se sabe bem como mas que se supõe terem-no sido por uma muito hábil e sábia noção da oportunidade aliada a uma falaciosa dialéctica em que se mostraram exímios, dando assim sentido ao celebérrimo aforismo popular de que é “com papas e bolos que se enganam os tolos”!  

Mas, voltando ao tema: - Nesses tempos, recordo-o bem, havia trabalho e pleno emprego.

Comentava-se e sabia-se pelo que nem sequer notícia era!.

A sociedade civil – e a militar, como se veio a verificar depois - só com o eventual derrube do sistema político vigente se entretinha, enquanto, tranquilamente, passeava nas ruas das grandes cidades e circulava nas estradas de Portugal em plena segurança, não obstante a guerra que, então, se vivia mais uma vez em África sem que, no entanto se esquecessem os heróis dos tempos de Mouzinho e a época em que essa guerra era unânime e patrioticamente celebrada, tendo ainda em consideração que os delinquentes, tanto os que só roubavam carteiras como os que praticavam crimes mais graves ou só sonhavam por bombas, muito poucos se comparados com os de hoje, se encontravam, em bom recato, na cadeia.

 Nessa época, o termo desemprego confinava-se apenas à "malandrice" e a um ou outro caso de um "patrão pouco cumpridor" mas quase não figurava na linguagem quotidiana do cidadão a não ser que se comentassem notícias avançadas pelos jornais e oriundas dos países onde se viviam as proclamadas amplas liberdades!

Recordo até que alguns trabalhadores menos honestos chegavam mesmo a chantagear os seus patrões, ameaçando-os, inopinadamente e sem qualquer aviso prévio - não obstante a lei já o previsse como obrigatório - de abandonar o seu posto de trabalho caso lhes não fossem satisfeitas determinadas e, as mais das vezes, utópicas reivindicações. E, casos houve, anedóticos por vezes, em que disso mesmo fui interveniente e testemunha e que, un dia talvez me disponha a referir aqui. Porém, o certo é que na maior parte das vezes, se as reivindicações pretendidas não fossem satisfeitas ou credivelmente prometidas, tais ameaças eram mesmo cumpridas, certos como o estavam os seus autores de que, ao virar da esquina, logo encontrariam quem de novo os empregasse ainda que noutro qualquer mister, conexo ou não com o que vinham desempenhando até aí e não requeresse particulares e específicos conhecimentos.

Os computadores eram ainda visões do outro mundo e o conhecimento desse facto era condição prevalecente no cuidado e precaução postos na formulação das exigências nesse campo.

Assim vivia o mundo do trabalho, sem o acesso a determinadas facilidades e “diversões” da vida actual, dita moderna e na qual avulta toda a perversidade de um deliberado e fácil esquecimento de princípios a par de um imaturo, muitas vezes desordeiro e não menos fácil, de costumes onde avultam a pornografia e o sexo como ingredientes principais. E essas facilidades e “diversões” que então não eram permitidas, não o eram só pela real escassez dos recursos económicos de cada um mas também, e principalmente, pela visão e a força do pastor que então guiava o rebanho português.

Aqui chegados, cumpre-me esclarecer de que tenho para mim como verdade que todo o rebanho precisa de um pastor sendo que, o que varia, será apenas o comprimento da vara e a sua natureza. Uns, tocam afinadinhos e regidos apenas pela fina e frágil batuta de um maestro. A outros, porém, só um bom cajado, serrano e bem “ferrado” na ponta, os fará obedecer - vidé citação mil vezes já aqui feita e que uma vez mais se me afigura útil recordar(1)!

Todavia, nem por isso, era então concebível que a alguém faltasse o pão ou as batatas à sua mesa, bem ao contrário do que hoje vem acontecendo e já com muito perigosa e acentuada frequência…

Paralelamente o urbanismo – trazido pelo incremento que vinham já tendo os modernos meios audiovisuais de comunicação, refiro-me particularmente à televisão que, embora a preto e branco, não deixava de pintar em cores berrantemente tentadoras esse “novo mundo” que se vivia nas cidades, fazia com que já se notasse nos campos algum desmazelo ou mesmo abandono das culturas, enquanto que, à volta das grandes cidades, em barracas – quiçá importadas do “modus vivendi” ultramarino – onde então, como dissémos, decorria a chamada “guerra colonial” – se amontoavam famílias inteiras ávidas de uma modernidade que ainda não entendiam e sem se aperceberem de estarem caminhando para aquela mesma “luz” azulada e traiçoeira que tão bem atrai os insectos para a morte. E os que assim procediam, faziam-no sem se darem conta da promiscuidade que já então começavam a cultivar e que nunca poderá ser comparada ao são, não obstante pobre e difícil, viver naquelas casas de aldeia, feitas em toscos pedaços de pedra de granito, de um só aposento no piso superior e onde apenas cortinas garantiam a privacidade e o ambiente era climatizado e desinfectado pelo fumo das lareiras e, no Inverno, aquecido pelo calor que, durante a noite, provinha dos currais sobre os quais fora construído…

Feita esta brevíssima síntese do que era a vida de alguns milhões de portugueses daqueles tempos, “orgulhosamente sós” como alguém, com rara felicidade da expressão, um dia disse, passemos ao que veio a acontecer depois de 74 até aos dias de hoje em que todos são aparentemente ricos em bens e sapiência - com tantos licenciados em tantas novas profisões mas todos eles, por definição, incompatíveis com o regresso aos campos que permanecerão sem que haja quem os trabalhe, tenho, para mim, que ainda um dia teremos de comer as notas de euro que, bem cozidinhas, talvez sejam comestíveis... E serão esses os envergonhadamente "novos pobres" que se não confundirão com aqueles que nadam nos milhões de súbita e duvidosa proveniência, e tão bem cultivam a suprema arte e sabedoria do embuste, “parecendo o que não são…”, como diria o sábio poeta Aleixo!, e talvez sendo o que ele mesmo dizia parecer ser: - além de ignorantes crassos, oportunistas sem escrúpulos… (Aleixo dizia mesmo “ladrão”!)

E foi assim que, com o 25 de Abril se abriram as portas às lutas laborais onde sempre foi pressuposto essencial que trabalhadores e patrões fossem inimigos pelo que deveriam permanecer em constante conflito.

De facto, o trabalhador e o patrão, qualquer que seja o pretexto e sempre como se o patrão não fosse, ele mesmo, um trabalhador também - quiçá o mais interessado, produtivo, perseverante e consciente – tudo o que, desde Marx e sobretudo desde essa sinistra figura que foi o Lenine dos anos de 1917 e das lutas de classes -  se estabeleceu foi que, fossem quais fossem as situações, patrões e empregados tinham de ser inimigos à força e inimigos tão figadais que bem se poderiam destruir entre si desde que em obediência militante às ordens das organizações parasitárias e de índole sempre quezilenta que então se criaram, como os sindicatos de origem socialista e comunista que logo passaram a decretar greves a esmo e, pouco a pouco, ano após ano, mês após mês, foram conduzindo o País à trágica situação em que hoje se encontra, precisamente quando o mundo ocidental – predominantemente “democrático” - se vê a braços com a gravíssima crise económico-financeira que o avassala!

E o mais estranho é que, para justificação da sua absurda existência e mais absurda ainda actividade, pois sempre insistiram no erro de, invocando indispensáveis benefícios laborais, sobranceiramente desprezar, fingindo ignorá-los, os reais motivos que levaram muitas Empresas estrangeiras a instalar-se em Portugal, País onde existia ordem em lugar de anarquia, a moeda era forte e solidamente sustentada pelas valiosíssimas reservas de ouro existentes no Banco de Portugal (e hoje, ao que dizem, completamente desbaratadas já que constituiriam, de facto, uma pesada herança), a concorrência “vigiada" por forma a evitar-se que extravasasse para a burla e adulteração de produtos e o trabalhador era internacionalmente reconhecido como íntegro e perfeito no mister que exercia, pelo que os níveis médios de produção em Portugal se poderiam considerar excelentes e bastante atractivos para o capital que essas mesmas Empresas aqui investiam, não me constando que então e em qualquer delas houvesse escravatura, pelo que tais greves eram decretadas por razões de índole unicamente política e, em termos laborais, perfeitamente fúteis, chegando a sua utopia ao ponto de esquecer que os verdadeiros donos das Empresas sempre teriam "a faca e o queijo" na mão já que teriam do seu lado o inquestionável direito de dispor livremente do que lhes pertencia e de, se assim o quisessem porque as condições não eram mais do seu agrado, as deslocar de Portugal para outros Países mais favoráveis, isto sem que nada se lhes pudesse opor, quer em termos teóricos quer mesmo físicos, como os anedóticos impedimentos da saída de máquinas e de mercadorias ou mesmo o sequestro de pseudo responsáveis.

Encerradas as Fábricas ou as Empresas atingidas pela onda de tão irresponsáveis greves e concretizadas as suas deslocações para Países de Leste, que logo "se apresentaram ao serviço" sem mais se lembrarem de Lenine que, como aconteceu na própria e desmantelada URSS, passaram a ignorar, logo os perniciosos efeitos de uma tal situação se foi espalhando pelo mundo dos negócios, amedrontando os possíveis e futuros empresários de outros Países que em Portugal tivessem pensado fixar-se dadas as garantias que, durante os anos em que não houve nem a fome nem o crime que as amplas liberdades hoje determinam e consentem, e que o nosso País seria suposto continuar a dar mas que não deu.

Daqui surgiu o desemprego a um ritmo acelerado e tão avassaladoramente galopante que os governos que, directa ou indirectamente, o consentiram, assustados e temendo agora a maciça fuga de votos que tal situação pudesse provocar e, a prazo, talvez mesmo uma “contra-revolução” – o Povo tem memória! – logo se apressaram a iniciar precipitados programas financeiros e sociais de apoio aos desempregados e, exagerando na "receita", como infelizmente acontece quando se age sem convicção mas por medo e com precipitação mal disfarçada, deixando-se deslumbrar pela aparente facilidade com que a Comunidade Europeia despejava, dia após dia, no nosso País, os milhões de euros que iriam fazer de nós um País novo, mas já sem identidade, porque nem isso souberam devidamente acautelar, logo se apressaram a tornar tais subsídios extensíveis à novíssima gama de parasitas que se foi criando à sombra do temível flagelo social que é o desemprego, e que, tal como se de uma praga se tratasse, logo se propagou do verdadeiro indigente e infeliz drogado de rua, alguns dos quais por opção própria, ao burlão e vulgar calaceiro, e destes últimos, até ao mais elevado grau da nova escala social, que ardilosamente beneficiando de leis feitas à pressa, logo os reivindicou também para si deles passando confortavelmente a viver sem dar quaisquer contrapartidas que os legitimassem.

E foi assim que, enormemente auxiliado pela informática, criadora da robótica que tanta mão-de-obra vem dispensando em todo o mundo – e nós não constituiremos excepção - o desemprego foi crescendo no nosso País até ao ponto, nunca antes sequer imaginado, de atingir os 11% da população activa que hoje atingiu.

Sou partidário de uma União de Trabalhadores para se poder opor, com oportunidade e eficácia, a algumas Associações Patronais e aos seus, eventualmente, perversos desígnios. Mas sou igualmente partidário da proibição da livre actividade de certos Sindicatos irresponsáveis que constantemente atiçam os trabalhadores contra os patrões como se de inimigos se tratassem, beneficiando da pouca cultura dos primeiros e da enorme e muitas vezes criminosa sagacidade dos segundos, arrasta a população obreira para greves infundadas e inconsequentes em termos de aquisição de benefícios, esquecendo-se de que, neste domínio, como em muitos outros, não só é a união que faz a força mas que é igualmente necessário que esta se faça no correcto sentido, como também de que os donos das coisas sempre tiveram, e sempre terão, o direito de se defender contra quem quer que seja que os pretenda esbulhar daquilo que lhes pertence.

E já agora uma pergunta: - alguém alguma vez viu um funcionário sindical, - alguns dos quais empregados e em funções desde o 25 de Abril! -fazer alguma greve contra o seu patrão, o próprio Sindicato em que trabalha e que o emprega? Acho que não, já que é muito mais fácil mandá-las fazer aos outros e ficar de fora a ver os resultados…  

(1)    Já em 46 A.C. Júlio César dizia no Senado, em Roma, que por cá, nestas paragens havia um povo que se distinguiria dos demais já que se não governava bem nem se deixava governar… Proféticas palavras!  

publicado por Júlio Moreno às 18:23
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds