Sábado, 25 de Setembro de 2010

Nunca digas nada. Se quiseres falar, nunca te esqueças: - diz só palavras…

 

Eram cerca de cinco e pouco da manhã e já me encontrava aqui sentado e a confessar à máquina o que me ia no peito sobretudo depois de me ter actualizado – como é meu hábito, um mau hábito, reconheço-o …  - este que cultivo de me actualizar aqui, na “actualidade” do Portugal Diário da IOL.

A notícia com que logo me deparei foi aquela da declaração de Passos Coelho de não voltar a falar com o nosso primeiro sem ser na presença de testemunhas!... Disse isto nos Açores, se não erro. Nos Açores!...  Logo aí!... Num tremendo feudo socialista! Parabéns pela ousadia e também pela coragem – o que não será de admirar a quem tão bom professor teve de política: - Sá Carneiro.

Falar só na presença de testemunhas?... Mas isto, que nem lembraria ao diabo, é tão grave que, se a tal não obstassem os meandros jurídicos da ultra-complicada arquitectura do nosso sistema legal – e não só os dos dias de hoje como também os que já existiam no passado e tão pesados engulhos nos faziam! – logo o seu autor seria processado por difamação já que em tais palavras se encontraria implícita a pública afirmação de que o nosso primeiro não é pessoa credível, que logo na primeira oportunidade se desdiz, negando ou alterando o que disse e alijando, deste modo, toda a carga excessiva e eventualmente  menos verdadeira ou mesmo injuriosa, que as palavras da sua conhecida dialéctica e antes proferidas contivessem ou pudessem, como tal, ser entendidas. E tudo isto ocorreria com a cobertura serena, paternalista e quase patética de uma Procuradoria de Justiça que vê, ouve e cala, a todos confundindo com os seus constantes e nem sempre conseguidos ziguezagues, desviando-se do que, em meu modesto entender, seria a sua principal e única missão: - velar e garantir que a Justiça, cega que é, consiga ver e repor, com oportunidade e eficiência, no lugar certo tudo o que dele, por errado, esteja deslocado.

Congeminemos, porém, uma pequeníssima peça teatral e Imaginemos a cena de Passos Coelho dialogando com o nosso primeiro sobre o Orçamento:

- Palácio de São Bento. Numa sala que não será oval mas sim quadrangular, irão estar presentes, além dos dois dialogantes, mais quatro pessoas como testemunhas e outras duas como estenógrafas. Três por cada lado, como facilmente se compreenderá e estas seis já todas instaladas nos respectivos lugares. Faltam apenas os dialogantes quando um funcionário, o mais inocuamente possível, anuncia da porta, com uma voz cansada e quase inaudível:

- O Senhor Presidente do Partido Social Democrata, Exmo. Senhor Dr. Passos Coelho…

(Este entra e dirige-se para o cadeirão que lhe foi indicado através de um pequeno aceno de cabeça por uma das suas testemunhas e onde se senta. Do Primeiro-ministro, nem rasto. Eis, porém, que, alguns minutos volvidos, uma outra porta, agora do lado contrário, se abre e sem qualquer anúncio prévio, descontraído e ágil – tinha acabado de tomar o seu chuveiro após o jogging dessa manhã – por ela passa o Engenheiro José Sócrates que, com ar jovial e prazenteiro a todos cumprimenta com um generalizado “bons dias, bons dias… espero que se não tenham aborrecido com a minha ligeira demora…” e, dirigindo-se a Passos Coelho que, entretanto, se levantara, lhe estende a mão, ao que este corresponde, ambos se cumprimentando, voltando a sentar-se).

Disse, então, o Primeiro-ministro:

PM - Então, pelo que vejo, está tudo a postos, não é verdade? Tudo bem, tudo porreiro…

(Entretanto cruza a perna direita sobre a esquerda depois de se certificar de que os vincos das calças não seriam desfeitos nessa manobra e isto enquanto Passos Coelho se move ligeiramente na sua cadeira. Inicia o diálogo o Primeiro-ministro).

PM – Então hoje temos o Orçamento, não é verdade?

PC – É verdade, Senhor Primeiro-Ministro, e o que me traz aqui, nesta audiência que teve a amabilidade de me conceder, bem como às minhas testemunhas, é precisamente o transmitir-lhe a nossa determinação de não viabilizar o Orçamento acaso o Senhor Primeiro-ministro persista na sua intenção de aumentar os Impostos ou de, porventura, arranjar outras formas de receita que resultem de um aumento de encargos para as famílias portugueses e para os portugueses em geral…

(E, num pequeno aparte, voltando-se para o seu estenógrafo, inquiriu: - tomou nota do que acabei de dizer, não tomou? Tendo este respondido que sim com um quase imperceptível aceno de cabeça, Passos Coelho recostou-se novamente na sua cadeira, esperando a reacção do PM que se não fez esperar.)

PM – Meu Caro Passos Coêlho, como já antes lhe disse, este é um assunto sobre o qual ainda teremos muito que dialogar… muito mesmo… E tanto que julgo mesmo que o melhor será deixarmos ficar esta discussão para depois da aprovação do Orçamento que já está escrito e passado para “pen” de última geração que o Senhor Ministro das Finanças a esta hora já deve ter preparada para entregar ao Camarada Jaime Gama, na Assembleia da República…

PC – Mas, Senhor Primeiro-ministro, como é isso possível se o objectivo desta reunião é precisamente…

PM – Ó Passos Coêlho, deixe lá isso que vamos ter muito tempo para discutir o assunto quando na próxima quinzena eu for ao Parlamento para dizer o que se estiver a passar…

PC – Insisto, Senhor Primeiro-ministro…

PM – Não insiste nada Passos Coêlho… Não insiste nada porque não há nada para insistir! Não vê que não chegámos a dizer nada e, não tendo sido nada dito ainda, não há mesmo nada para insistir… não é verdade?...

(E o PM sorri para os circunstantes que, literalmente de boca aberta, olham, espantados para um e para outro dos interlocutores enquanto que os estenógrafos mantêm as respectivas maquinetas paradas pois também elas estão paralisadas de espanto…)

PM – Sabe, Passos Coêlho, esta minha lógica cartesiana e, por isso mesmo, inatacável,  aprendi-a eu, e com distinção, na Universidade Independente… aquela onde me licenciei e que o Gago, infelizmente mandou encerrar, nunca soube bem porquê… Aí é que ele esteve mal e prestou um mau serviço ao País pois era, até ao momento, o único estabelecimento de ensino que fazia exames por fax e passava Diplomas de licenciatura aos domingos, feriados e dias Santos de Guarda,  tudo sem que os professores reclamassem ou exigissem um cêntimo que fosse de horas extraordinárias!... Olhe, um grande prejuízo para o País, um enorme prejuízo, agora infelizmente irrecuperável… irrecuperável até porque o seu corpo decente, desculpem, docente já lá não está ignorando-se o seu paradeiro…

(Ajeita-se um pouco na cadeira e descruza as pernas).

PM – Não quer ir dar uma voltinha aqui pelo jardim. Hoje o dia está tão aprazível que quase estaria tentado em dar um pequeno mergulho na piscina, isto se me quisesse fazer companhia, claro!…  O Dr. sabe nadar, não sabe? Olhe que eu se não soubesse certamente que já me teria afogado!...

(Procurando aquietar a sua cólera, que só um súbito intumescimento das veias jugulares denunciava, Passos Coelho levanta-se).

PC – Senhor Primeiro-ministro, é meu dever fazer-lhe notar que o Senhor não respondeu minimamente a qualquer das questões que importava discutir nesta reunião…

 PM – Ai isso é que respondi! Respondi sim senhor e até lhe fiz um convite ao qual o Senhor ainda me não respondeu…

(Nessa altura abre-se subitamente a porta por onde entrara Passos Coelho e o mesmo recepcionista que antes o anunciara, numa voz agora perfeitamente audível porque era em pânico que gritava).

- Ai meu Deus que rebentou a Revolução. Estão já todos no jardim e desta vez não trazem cravos nos canos das espingardas!...

(Cai o pano e com ele um letreiro onde se lê: - “ A BEM DA NAÇÃO NÃO BATAM PALMAS”  

publicado por Júlio Moreno às 17:11
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