Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Para onde caminha o mundo?

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Recordo, e ainda não vão lá muitos anos, o tempo em que as estações do ano eram coisas certas, com ligeiríssimas excepções – talvez algum nevoeiro pela manhã em certas zonas costeiras do Norte durante o mês de Agosto - mas em que toda a gente podia confiar.

O Inverno, essa enorme estação dos grandes frios (aqui chamamos frio quando a temperatura desce a 5 0u 6 graus!) e das chuvas intermináveis, de miudinhas, de cima para baixo e de baixo para cima, a torrenciais, de alguns temporais e, de um modo geral, caracterizado por um clima algo, inóspito, de neves e geadas a requerer gabardinas, sobretudos e grossos camisolões e meias de lã.

A Primavera, permitindo já e progressivamente trajes mais ligeiros, dando verdadeiramente os seus timoratos passos em Abril “de águas mil” mas já se deixando dominar pelo sol por entre algumas nuvens brancas, acasteladas e formando estranhas e bizarras figuras que eu, ainda criança, comparava a castelos, a estranhas formas de animais ou a monstruosas figuras do que hoje se chamaria de “ficção” e tanto divertem, convertidas e recriadas nesses monstruosos brinquedos denominados "transformers", as crianças de hoje.

Com as temperaturas subindo, gradual e regularmente, era-me uma estação particularmente grata por ser a do meu aniversário e das prendas que então receberia mas, paralelamente e quando comigo mesmo perdido em lucubrações a que hoje chamaria de menores mas que, na realidade e ao tempo, não poderiam deixar de ser maiores, já que era o tempo da época dos exames que se avizinhava e com ela a avaliação do meu ano de proverbial “cabulice” posta a nu nas escassas horas que demoravam cada prova, chegava mesmo a temê-la um pouco e à medida em que os seus três meses iam decorrendo.

Transposto este meio obstáculo, porém, era o Verão que surgia em todo o seu esplendor de calor, excentricidade, fulgor e fantasia, o Verão das férias, da convivência com os meus primos e primas – eu, que sendo filho único, vivia sozinho todas as restantes épocas do ano até porque no local onde vivia não abundavam os companheiros da escola que ficava ainda longe, apenas acompanhado do meu gato, do meu cão e do pintassilgo, além, terei de o confessar, do verdadeiro “zoo” que minha mãe consentia que eu tivesse no quintal – esse Verão da praia e do mar – o meu eterno e temeroso amor – e o bulício das termas, primeiro Vidago e mais tarde Carvalhelhos, com os hotéis cheios e pequenas multidões deambulando pelo parque fazendo horas para tomar 30, 40 ou 50 gramas de água mineral da fonte nº 1, fria ou morna conforme houvesse sido a prescrição do médico, e outros grupos mais reduzidos e equipando a rigor, para o ténis, indumentária toda branca, e para o golfe, com as calças assim designadas que deixavam antever meias de xadrez cujos pés calçavam grossos sapatos cardados para se agarrarem ao terreno, jogando ténis ou golfe naquele meu saudoso campo de nove buracos onde despertei para uma modalidade que sempre me encantou e na qual cheguei mesmo a ser regular jogador, muito embora sem as técnicas que hoje vejo apregoadas e convertidas em regras tão sagradas quanto “escrituras” e que, quando violadas, também então davam lugar a enormes e eloquentes discussões e protestos, o prato predilecto daqueles que, sem jeito algum para tal desporto, se esforçavam denodadamente por praticá-lo uma vez que ele corresponderia, na época em questão, à pretença obtenção de um “status” social já elevado e que, por tal via, pretendiam alcançar senão subir e mesmo transpor.

Com o final do Verão era o desfazer da festa, o despovoar daquelas zonas de tão grande lazer e prazer, dos namoricos inconsequentes mas que serviam para melhor preencher aquelas deliciosas horas de liberdade e das enormes cavalgadas pelas pradarias transmontanas e barrosãs, e o regresso triste e melancólico, e não raro pessimista, a mais um Inverno que teríamos de enfrentar, sabe-se lá com que “riscos” e dificuldades dessa vez!

Mas, pouco a pouco, tudo isto, havido sido tacitamente aceite como imutável regra que cronologicamente se repetia a cada ano, mas que se foi gradualmente modificando, ao princípio sem que se desse conta disso ou, dando-o, sem que lhe fosse dado especial significado ou importância. Porém, pouco a pouco essa mudança, em crescendo, foi-se transformando no gravíssimo problema que o mundo actual já enfrenta e não mais pode continuar a ignorar: - o problema ambiental e as marcantes alterações climáticas que, sendo embora cíclicas no historial planetário ou mesmo galáctico, nunca terá prejudicado as gerações humanas mas a que cegueira e avidez dos homens de hoje, aliada à sua mesquinhez de espírito e só pretença evolução moral e cultural, eivada de corrupção de costumes, de ganância por lucros cada vez mais fáceis e tanto mais elevados quanto mais vastas eram as massas humanas que, sem dó ou piedade, em nome do progresso escravizavam, veio, acelerar desmesuradamente o quase descalabro em que hoje já quase vivemos, tudo pondo em causa no brevíssimo espaço de 50 anos, uma gota de água na imensidão incomensurável dos tempos onde o próprio tempo não teve, não tem nem nunca poderá ter bitola por onde guiar-se.

Assim, com o ar a poluir-se a já cheio de gases nocivos que, provocando o efeito de estufa, vão, dia a dia, fazer aquecer o planeta, se vão envenenando as espécies vivas, cada vez mais privadas, como é o meu caso, do oxigénio que, nas devidas proporções, é a fonte essencial da sua própria vida, e com a consequente e previsível liquefacção dos velhos glaciares e das calotes polares cujas águas, aprisionadas há milhões de anos sob a forma de gelo e finalmente libertadas, irão aumentar desmesuradamente o volume dos mares e oceanos, submergindo metrópoles hoje ribeirinhas e que só então se revelarão como exponenciais padrões da falsa civilização em que vivem e que, assim desaparecendo, conduzirão a uma tremenda incógnita que será a da miscigenação das populações urbanas, as refugiadas, com as rurais, habitantes das alturas, produzindo choques e reduzindo a nada o que nada já foi, com planeta a caminhar inexoravelmente para uma desintegração que já começa a ser visível – como já o era de há anos para cientistas mais atentos mas aos quais os poderes terrenos, autistas políticos e económicos, nenhuns ouvidos davam – veja-se a recusa dos EUA em assinar o velhinho protocolo de Quioto – com os vulcões a surgirem, os terramotos a acontecerem e os “tsunamis” a matarem, como que assim expressando a revolta do próprio planeta pelo tratamento que lhe foi dado, julgo ser-nos lícita a pergunta que hoje já todos timoratamente fazem mas à qual muito poucos são os que a ela conscientemente respondem: - que mundo iremos nós legar aos nossos netos que o mesmo é dizer-se à humanidade vindoura certamente desejosa de regressar aos tempos em que as “estações do ano” eram tão exactas como as dos comboios e em que as nossas viagens no tempo ainda podiam ser previamente marcadas com a exactidão com que aquelas outras se marcavam!

Que Deus nos proteja, se essa for a sua vontade e me possa perdoar o fraco contributo que dei para que nada disto acontecesse!

Hoje, 29 de Junho, dia de Verão, aqui no Porto chove e faz sol lá fora e por Lisboa houve inundações que só costumavam constituir notícia nos meses de Inverno mais rigorosos…
publicado por Júlio Moreno às 13:56
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