Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Fui uma espécie de assessor do Marechal António de Spínola

 

Marechal António de Spínola

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi sem contar que me tornei uma espécie de assessor do Marechal António de Spínola.

Corria o ano de 1967 ou 68, se não erro, quando fui designado para comandar interinamente a Companhia de Comando e Serviços do Comando Geral da GNR onde, na extinta Repartição de Justiça, vinha exercendo, como adjunto, a minha actividade de "curandeiro jurídico" ao analisar, sem estar licenciado, processos de corpo de delito ou de meras averiguações, formular relatórios e dar pareceres além de elaborar algumas minutas de despachos a proferir pelo General Comandante-Geral sobre assuntos do foro jurídico e em que a Guarda ou o seu pessoal estivessem envolvidos.

Por força do exercício desse breve e interino comando veio-me ter às mãos um extenso documento elaborado pelo então Brigadeiro António de Spínola, 2º Comandante-Geral, que culminava com uma normativa constante de 14 artigos e que fora igualmente distribuida a todos os comandantes de Unidades e Subunidades independentes para, num determinado prazo,  sobre ela darem a sua opinião.

Como era meu hábito e sempre fiz, estudei aprofundadamente o assunto que me era apresentado e, para meu próprio espanto, dei comigo a discordar de 13 dos 14 artigos propostos para análise pelo que, no parecer que seguidamente formulei, dei conta dessa discordância, de fundo nalguns casos e de mera redacção noutros e que corrigi.

Porque era Natal e dispunha dos velhos 5 dias de licença da alínea a) – só passíveis de gozar se não houvesse prejuízo para o serviço – entregue, dentro do prazo, o parecer na Quarta Repartição e obtida a licença, abalei para o Porto, com minha mulher e os nossos três filhos, para passarmos o Natal em família dado que somos todos oriundos do Norte.

No dia 26, porém, uma ordenança de moto do Batalhão 4 deslocava-se a minha casa para me entregar um telegrama urgente que, sem aduzir razões, me mandava regressar a Lisboa a tempo de comparecer, pelas 9 horas da manhã seguinte, a uma reunião que o nosso Brigadeiro tinha convocado e para a qual mandara comparecer todos os comandos do País.

Num telefonema, entretanto feito para Lisboa para o meu velho amigo Major Marques, o chefe da Quarta Repartição (Operações) onde entregara o parecer, dizia-me ele: - “Estás tramado pá!... Toda a gente concordou com o nosso Brigadeiro e só tu discordaste!... Por isso ele marcou esta reunião…”.

Calcular-se-á facilmente como foi com o coração apertado que, deixando a minha gente no Porto, me meti no carro e regressei à capital pela velhíssima estrada nacional nº 1 e com as quatro horas e tal de condução que tinha pela frente!

Às 9 horas do dia seguinte, pontualmente, estando todos os convocados, coronéis, tenentes-coronéis, majores e capitães – só eu era tenente, na sala de reuniões anexa ao gabinete do Brigadeiro, este entrou e, tirando o seu monóculo que substituía pelos pequenos óculos que usava quando trabalhava, cumprimentou a todos os presentes e, indo directo ao assunto, disse mais ou menos isto: - “Agradeço a vossa presença e já sabem, por certo, qual o motivo deste reunião… Devo acrescentar, entretanto, que o único trabalho que iremos analisar é o que me foi apresentado pelo tenente Moreno…” – e olhou na minha direcção, o que me tornou ainda mais pequeno de pequeno que me sentia ao fundo da enorme mesa onde só havia patentes muito superiores à minha!

Interpelando-me então directamente, perguntou: - “Tem consigo uma cópia do trabalho que apresentou?...”  Perante a minha resposta afirmativa, logo iniciou, através da pessoa do coronel Ângelo Ferrari, o Chefe do Estado-Maior, a distribuição por todos os presentes de fotocópias do texto que eu escrevera após o que deu início aos trabalhos que se traduziram, afinal, na análise, letra por letra, palavra por palavra, contexto por contexto, de quanto eu estudara e escrevera.

Esta reunião, interrompida ao fim dessa tarde e retomada na manhã seguinte, só viria a terminar ao fim do segundo dia de trabalhos com a aprovação, na íntegra, de doze dos treze artigos por mim propostos, sendo que, quanto a um deles, não havendo sido rejeitado e muito menos contestado, foi levantada a dúvida de algum conflito que pudesse haver com a lei civil pelo que foi cometida a uma restrita comissão, da qual também fiz parte, e para mais tarde, um mais aprofundado estudo sobre o assunto em causa.

E foi assim que me tornei quase assessor do Marechal Spínola que, enquanto vivo, sempre fez o favor de me honrar com a sua amizade e confiança e com o qual sinto hoje obrigação de vir aqui relatar e relembrar alguns outros factos que até hoje entendi dever manter em silêncio mas que me decidi a revelar já que melhor ajudarão a compreender a sua extraordinária e prestigiada figura de militar, de português e de verdadeiro patriota.

Paz e glória à sua alma e que me perdoe se me considerar indiscreto muito embora sempre tenha sabido que não fui, não sou nem nunca serei um “yes man” e que sempre soube ser firme nas minhas convicções.

A seu tempo outros interessantes episódios aqui referirei. A seu tempo… a seu tempo…

publicado por Júlio Moreno às 17:13
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