Sábado, 12 de Fevereiro de 2011

Mais um episódio…

Mais um episódio dos vários que prometi aqui narrar e que talvez ajudem a fazer alguma luz sobre o que terá sido a minha vida e a conturbada existência de muitos portugueses que, mesmo nos dias de hoje, e porque ainda teimam em viver, lhe estarão sofrendo as indeléveis consequências…

Estávamos nos últimos dias da primeira quinzena de Setembro de 1974 quando fui procurado por um amigo e ex-camarada meu da GNR, então a prestar serviço em Angola como major, que, sabedor da estima que o General Spínola tinha por mim, então na Presidência da República e que, por isso mesmo, eu evitava, tanto quanto possível, contactar, pedia a minha intervenção no sentido de tentar obter com ele uma entrevista.

Atendendo a que seriam razões ponderosas as que o levavam a fazer-me tal pedido, acedi e solicitei à minha secretária de então que telefonasse para Belém e procurasse saber dos serviços da presidência da possibilidade de conseguir tal audiência dado que o meu amigo major não demoraria muito a regressar a Angola.

Excedendo todas as nossas expectativas, dado o conturbadíssimo momento que atravessávamos, essa entrevista foi marcada logo para o dia 17 desse mês, às onze horas. Assim o comuniquei ao meu amigo e com ele combinei que, conforme seu desejo, o acompanharia a essa reunião.

Pontualmente, ás 11 horas do dia marcado, ambos comparecemos em Belém. Íamos em traje civil. Eu, como não poderia deixar de ser uma vez que abandonara a GNR, a meu pedido, em Março de 1969, e ele por opção óbvia.

Continuando distinguidos, como já havíamos sido pelo Presidente que acedera em receber-nos em tão curto espaço de tempo quando as audiências que lhe eram solicitadas demoravam semanas quando não meses a concretizar-se, as que o eram, foi sem surpresa da minha parte que, à hora marcada, fomos ambos introduzidos no gabinete Presidencial onde o General, que nos recebeu com visível satisfação, logo nos fez companhia num pequeno recanto do seu gabinete de trabalho, destinado aos visitantes e onde atentamente ouviu a pretensão daquele meu amigo – cujo teor, em boa verdade, hoje já não recordo. 

Depois disso entrámos numa conversa que, para quem não conhecesse o General como eu já conhecia, poderia tomar-se como conversa banal mas que o não era, antes evidenciando da sua parte uma séria e muito profunda apreensão acerca do momento político que se vivia então, nomeadamente pelo que tocava à nefasta influência do General Vasco Gonçalves, então primeiro-ministro, e cujo antagonismo consigo era público e notório.

Terminada a reunião, feitas as protocolares despedidas e apresentados os nossos agradecimentos, mais de uma hora se havia passado quando, à saída, nos cruzámos com três generais, dois fardados e um à civil, que, já há algum tempo, esperavam a sua vez de serem recebidos e que nos olharam interrogativamente – recordo bem esse olhar – querendo obviamente saber quem seriam aqueles dois figurões que tanto se haviam demorado com o Presidente e que, se não tivesse sido a eles mesmos, tanto tempo haviam roubado à República!

A resposta, se então lhes pudesse ter sido dada, teria sido tão fácil quanto óbvia: - o Presidente voltara a sentir-se “com a sua gente”, sentira a presença dos seus “verdadeiros amigos” e quisera esvaziar com eles o seu já então “bem amargurado saco”…

Foi esta a última vez em que, pessoalmente, me encontrei com o General Spínola. Depois, foram as vicissitudes por que ambos passámos e muito mais tarde alguns recados e notícias que trocámos por interposta pessoa até à data do seu falecimento.

No dia seguinte, depois de muito ter meditado em quanto ouvira, decidi convidar para almoçarem comigo na Carregueira, - o “Lisbon Sports Club”, clube de golfe de que eu então era sócio – a alguns oficiais amigos e, como eu, apoiantes do General e a quem dei conta do que dele ouvira e das minhas apreensões sobre o momento político em que vivíamos.

Dias depois, a 30 de Setembro e com o seu inesperado discurso de renúncia ao cargo de Presidente da República, e que eu ouvi na rádio quando regressava da Caparica de uma visita de trabalho por questões de segurança a umas instalações militares da margem sul e fui interceptado por uma anedótica operação “stop”, feita pelos arruaceiros do costume, que me fizeram parar na ponte Salazar para revistarem o meu carro como, aliás. faziam a todos os restantes.

Era o já Copcon de Otelo no seu melhor!...

A propósito, recuso-me a designar a ponte Salazar por ponte 25 de Abril por entender que, nem no País vizinho, onde bem mais fortes teriam sido as razões para apagar os vestígios do franquismo, os espanhóis haviam deixado de respeitar a história como por aqui se fez e continua fazendo hoje!

publicado por Júlio Moreno às 12:20
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