Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Ossos do ofício…

Sob este título, nada original como poderão verificar, proponho-me hoje recordar um episódio curioso ocorrido enquanto comandante da GNR na cidade de Guimarães, e que terá tanto de insólito, como de invulgar ou incomum, além de poder vir a ter o mérito de fazer com que certos espíritos sorriam um pouco ao lê-lo.

Foi durante o período em que permaneci naquela cidade (1061-65), não me ocorrendo o ano, que aconteceram umas eleições para a Assembleia Nacional, dominada, como se sabe, pelo partido único da União Nacional e onde, só por mero folclore e para inglês ver, se consentia a celebração de alguns comícios “da oposição”.

Assim, na cumulativa qualidade de autoridade militar local e de comandante da GNR, entendeu a Comissão Organizadora do Comício da União Nacional, que me deveria convidar a estar presente pelo que me endereçou o habitual e protocolar convite.

Chegado à minha mão quase sobre a hora, sinal mais do que evidente de que aquela lembrança só pouco antes deveria ter ocorrido à Comissão, respondi, polidamente, em cartão pessoal, que mandei entregar por uma ordenança, que as minhas obrigações profissionais me obrigavam a declinar o amável convite que me fora endereçado e que, pelo contrário, me imporiam que permanecesse no quartel nesse momento, quando, inesperadamente, recebi um telefonema do próprio Governador Civil de Braga que me incumbia de o representar nesse comício dado que, nessa mesma hora, teria de estar no Porto numa outra reunião política inadiável.

A minha primeira reacção foi a de tentar travar a entrega da resposta que enviara ao Presidente da Mesa pelo que pedi a outro guarda que fosse no encalço do primeiro e fizesse abortar a missão que lhe dera momentos antes, o que felizmente foi conseguido; e a segunda foi a de me dirigir apressadamente a casa para me desfardar e vestir um traje civil pois seria desse modo que deveria representar aquela entidade.

E foi assim que me apresentei no Comício, onde, depois de cumprimentar as várias personalidades presentes, me dirigi ao Presidente da Mesa para o cumprimentar também o qual, vendo-me à paisana, com o que certamente não contava, me manifestou uma silenciosa estranheza pelo que me apressei a esclarecer que estava ali em representação do Governador Civil e não como comandante da GNR, o que, por óbvias razões, não poderia ter feito embora lhe agradecendo o convite que me fizera.

Cheia a sala onde correria a sessão e preparado o "palco" onde se encontrava a Mesa e onde deveriam proferir os seus discursos os oradores inscritos, nele me foi indicado um enorme cadeiral, destinado que era ao Governador Civil.

Sentado, como aliás já toda a gente estava, entretinha-me a passar os olhos pela vastíssima plateia sem me dar conta de terem sido já várias as tentativas que o Presidente da Mesa fizera no sentido de solicitar ao “Governador Civil” autorização para dar início à sessão, o que fez logo que, distraidamente, olhei para o lugar onde ele se encontrava, já de pé e, talvez porque tenha feito qualquer movimento ou esboçado qualquer sorriso na sua direcção, logo ele de tal se aproveitou para, dando como obtida a autorização que pretendia, dar, de imediato, início à sessão cumprimentando a pessoa do representante do “Governador”, toda a assembleia e chamando o primeiro orador da noite.

Entretanto, experimentando aquela novíssima sensação pela primeira vez na minha vida e aos 26 anos de idade, cedo me dei conta de que as dez primeiras filas da plateia, pelo menos, regulavam os seus aplausos pelas palmas que eu também ia batendo o que me deu alento para tentar, o que senti seria uma autêntica “brincadeira”, e que consistia no seguinte: -  sempre que ouvia palavras ou expressões como: “patriótico”, “irmão de cor”, “ultramar português”, bandeira nacional”, “amor pátrio”, e outras empolgadamente patrióticas, logo iniciar uma solene e mais ou menos prolongada sessão de aplauso ao orador que estivesse em cena no que era, de pronto, secundado pelas tais dez filas da plateia a que fiz antes referência e que logo cessavam as palmas que batiam no momento em que eu próprio cessava as minhas!

Senti-me um verdadeiro regente de orquestra ou maestro político e como tal me defini e ao dar nota do que se passara no relatório que, no dia imediato, enviei para o Comando-Geral através dos canais hierárquicos competentes.

Passados alguns dias, o bom amigo e já falecido capitão ajudante do Batalhão, telefonou-me do Porto para me dizer que o meu relatório já seguira para Lisboa mas que, se calhar, iria dar sarilho…

publicado por Júlio Moreno às 17:26
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