Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

Deveres de um oficial da Guarda…

Um dos deveres do comandante da GNR de uma determinada área territorial era (não sei se ainda é) o de se apresentar ao Ministro do Interior (hoje da Administração Interna) sempre que este entrasse na área da sua jurisdição.

Ora, durante uma das frequentes visitas do Presidente da República a Guimarães, foram vários os membros do governo que então o acompanharam tendo ficado acomodados em variadíssimos hotéis da região, sabido como é que Guimarães não primava então pelo número de hotéis que pudessem albergar por duas ou três noites tão elevado número de ilustres visitantes.

Por esse motivo, tanto o Ministro do Interior, Santos Júnior, como o da Marinha, Almirante Quintanilha e Mendonça Dias, tiveram de ficar em Vizela, a escassos 7 ou 8 quilómetros de Guimarães.

Como se me impunha e porque havia razões para temer que algum “golpe de mão” pudesse ser então perpetrado, tomara as respectivas providências no tocante à segurança de ambos os Ministros que se encontravam na área rural sob a minha jurisdição, já que em Guimarães, meio urbano, o problema era mais da PSP do que da GNR. Assim e atendendo a que o quarto destinado ao Ministro do Interior se situava precisamente ao nível do rés-do-chão, com duas enormes janelas voltadas para o jardim e parque do hotel, densamente arborizado e, por isso mesmo, propiciando muitos locais onde se puderia esconder qualquer atirador furtivo, mandei destacar um guarda para, discretamente mas em permanência, efectuar a vigilância dessa zona.

Entretanto e no cumprimento do meu dever de apresentação ao Ministro, desloquei-me a Vizela com essa intenção mas, para minha surpresa, os Ministros haviam decidido jantar mais cedo e encontravam-se precisamente a meio do jantar, na companhia do Governador Civil de Braga e do Presidente da Câmara de Guimarães - Vizela ainda lutava por vir a ser sede de concelho – pelo que avisei na recepção do hotel para nada dizerem sobre a minha chegada pois esperaria pelo final do jantar.

Surpreendido fiquei, portanto, quando o oficial às ordens do Ministro veio ao meu encontro e me comunicou que o jantar estava a terminar pelo que o Ministro, sabedor da minha chegada, me convidava a tomar café com eles.

Aceite o convite e dispensado da formal apresentação fui respondendo a algumas perguntas de circunstância que ora um, ora outro, ambos os Ministros me formulavam até que Santos Júnior me disse:

- Tenente, vi, por acaso, um guarda seu no parque perto da minha janela e, interrogando-o, soube que tinha por missão vigiar aquela zona segundo ordens suas expressamente dadas ao Comandante do Posto daqui de Vizela. Ora, o que eu queria dizer-lhe é que pode mandar o guarda embora pois eu não o quero ali…

Dito isto, preparava-se para continuar a conversa com os demais presentes quando eu, respeitosamente, lhe pedi a palavra tendo-lhe então respondido:

- V.Exa., Senhor Ministro, é o responsável máximo pala GNR, acima mesmo do nosso General Comandante-Geral, e, como tal, as suas ordens devem ser prontamente acatadas e obedecidas. Neste caso, porém, permita-me V.Exa. que discorde uma vez que o responsável pela segurança pessoal de V.Exa. sou eu, e, sendo eu o responsável, será a mim a quem cabe decidir se a presença do guarda naquele local é necessária ou não. E creia, senhor Ministro, que tenho muito boas razões para julgar que sim. Portanto, o guarda fica…

Poderão imaginar o silêncio que se seguiu a estas minhas palavras e a palidez do Ministro que eu vi claramente no seu petrificado rosto.

Valeu-me, naquela ocasião, o Ministro da Marinha que, dando uma breve gargalhada ao mesmo tempo que uma amigável pancadinha nas minhas costas, disse para o Ministro do Interior:

- Ora diga lá, senhor Ministro, diga lá se somos nós quem manda!... – e continuou rindo, o que rapidamente contagiou a todos menos ao Dr. Santos Júnior que bem percebi ter engolido em seco depois de ouvir o que ouvira e desarmado como fora pela intervenção do Almirante.

Constava que ele era de “gancho” – como se dizia na nossa gíria – e no dia seguinte provou-o bem ao mandar o comandante do meu batalhão castigar um camarada meu de cavalaria que, viera expressamente do Porto com o seu pelotão a cavalo para a guarda do Palácio durante a estada do Presidente.

Postada a guarda de honra à sua chegada e do Ministro da Marinha foi a este último, que estava fardado, e não a ele, como deveria ter feito, a quem foi prestada a continência da ordem…

publicado por Júlio Moreno às 02:12
link | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


.posts recentes

. Mais uma vez mão amiga me...

. Um tristíssimo exemplo de...

. A greve como arma polític...

. A crise, o Congresso do P...

. O PRESIDENTE CAVACO SILVA

. Democracia à portuguesa

. ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

. Cheguei a uma conclusão

. A grande contradição

. O jornalismo e a notícia ...

.arquivos

. Setembro 2013

. Junho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Maio 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

.favorito

. Passos Coelho: A mentira ...

. Oásis

.links

.participar

. participe neste blog

blogs SAPO

.subscrever feeds