Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Meu Pai…

Chamava-se Augusto Gonçalves Moreno. nasceu em Bragança em 31 de Março de 1906, sexto filho do ilustre professor, filólogo e cultor da língua portuguesa Augusto Moreno,  foi médico em Vidago (de 1935 até 1948) e aí deixou grandes amizades não só pelo seu profissionalismo como igualmente pela grandeza moral da sua personalidade.

Vivendo em Vidago, nos primeiros anos de casado com Maria Barata Pinto Feyo de Victória, teve um grande incêndio em sua casa, situada no centro da Vila, ao lado do Grande Hotel, à margem da Estrada Nacional Vila Real - Chaves. Nesse incêndio tudo perdeu ficando, tanto ele como sua mulher, minha mãe, apenas com a roupa que tinham no corpo na altura em que, acordados pelo intenso cheiro a fumo, apenas tiveram tempo de fugir para a rua com os roupões de quarto que ainda puderam vestir.

Valeu-lhe, na dramática ocasião que viveu, a generosa e inesquecível atitude da família Abreu, proprietária do Hotel Avenida, que, sabedora do ocorrido, os acolheu a ambos enquanto não se puderam alojar na casa, propriedade da referida família, que passaram a habitar na Avenida Teixeira de Sousa e onde passou também a ter o seu consultório e da qual, da minha infância, tantas e tão gratas memórias tenho!

Em 1950, dada a sua especialidade de médico hidrologista, além de clínico geral, foi designado Director Clínico das Caldas Santas de Carvalhelhos, estância termal situada a cerca de 9 quilómetros de Boticas e a 2 de Bessa, cargo que desempenhou durante longos anos e para onde se deslocava anualmente durante a época termal, de Julho a Setembro, até 1980, ano em que se reformou por sua iniciativa, tendo então mudado a sua residência do Porto (Foz), onde residia durante o Inverno e onde era médico dos, então designados, Serviços Médico -Sociais , prestando serviço no Posto Médico situado na Rua do Molhe, na Foz do Douro.

Nos últimos anos da sua vida e já viúvo, pois sua mulher falecera em Maio de 1974, dada a sua paixão pela serra e pelas termas onde fora clínico e onde granjeara grande estima, não só junto da população local como da dos arredores pelos cuidados de saúde que sempre lhe foi prestando, fixou residência nas Caldas Santas de Carvalhelhos, onde veio a adoecer gravemente, tendo falecido a 10 de Dezembro de 1984 no Hospital de Chaves para onde foi encaminhado e assistido pelo seu grande amigo Dr. José Manuel Abreu, que o substituíra em Vidago, e que ele havia acompanhado quando este ainda estudava medicina em Coimbra.

Por haver entendido que essa seria a sua vontade e que ele de tal teria gostado, aquando da sua trasladação para o Porto, onde repousa, ao lado de minha mãe, no cemitério de Agramonte, decidi fazer um desvio no trajecto e passar com ele por Carvalhelhos onde muito me emocionou a homenagem que toda a população das termas, que, sem que com tal contasse, logo lhe quis prestar, acompanhando, pesarosa, o seu féretro no pequeno percurso que fez pelas zonas que ele tão bem conhecia e amava antes de delas se despedir em definitivo cerca de uma hora depois…

Por minha vontade e se tal fosse permitido pela lei portuguesa, teria procurado algum souto próximo que, além de castanheiros possuísse urzes e fragas, algures por alguma daquelas serras que ele tantas vezes percorreu e tê-lo-ia deixado em cova aberta no seu seio, sendo só eu sabedor do local exacto onde o corpo fora colocado porque a sua alma, essa, está presente e junto de quantos o amaram e compreenderam.

Senti hoje e aqui, tal como já antes o fizera na Wikipédia, seria a hora de lhe prestar o preito de toda a minha eterna saudade e que, com o tempo que passa, cada vez mais se vem tornando presente e adensando no meu coração!

Bem hajas, Pai, por teres existido e pelo generoso e desinteressado auxílio que a tantos prestaste nesta vida… Espero que, quando, um dia, chegar a minha vez, possa encontrar-te, assim como à Mãe, e apresentar-vos então quem tanto haveríeis de ter gostado de conhecer ainda aqui na terra. Agora aí, nesse lugar santo que sei te encontrarás, beija a minha Mãe por mim e dá-lhe também conta da saudade que também sinto por ela!

Ah!... Já me esquecia de te dizer o que, um dia, talvez um ano depois de tu teres ido, um homem, que eu não conhecia, se abeirou de mim, em Boticas, e me perguntou: -“ O senhor é filho do Dr. Moreno, não é?”. Perante a minha resposta afirmativa ele disse então: - “Conheci-o. Os meus sentimentos. O seu Pai era um homem de bem!...”. Não disse mais mas eu senti tanto orgulho, Pai, tanto orgulho em ser teu filho! E, já agora, também em Boticas, quando me dirigia a um passante para perguntar uma qualquer informação, ele, que eu não sabia tratar-se do Comandante dos Bombeiros locais, aproximando-se da janela do carro disse-me: -“ Desculpe, é filho do Dr. Moreno, não é? Está igualzinho ao seu Pai e, por momentos, até o confundi com ele!...”. Um dia te apresentarei quem estava comigo e testemunhou este momento que, mais uma vez, tão orgulhoso me deixou ao mesmo tempo que pensava: - “Se tu soubesses amigo, se tu soubesses a que distância eu me encontro do meu Pai e quão pequeno sou perante a sua grandeza!...”

publicado por Júlio Moreno às 13:58
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